{"id":4204,"date":"2009-05-26T17:19:53","date_gmt":"2009-05-26T20:19:53","guid":{"rendered":"http:\/\/antonini.med.br\/blog\/?p=4204"},"modified":"2023-01-16T08:47:39","modified_gmt":"2023-01-16T11:47:39","slug":"a-era-da-bizarrisse","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/opatriota.org\/?p=4204","title":{"rendered":"\u00c9 a economia, est\u00fapido"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align:justify;\">\u201cLula \u00e9 a nossa Maria-Fuma\u00e7a com bitola estreita: queima muito combust\u00edvel, carrega mais de 40 vag\u00f5es vazios, amea\u00e7a descarrilar na curva, n\u00e3o vai muito longe, mas apita que \u00e9 uma beleza!\u201d<\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">Mara Montezuma Assaf<\/p>\n<p>Por <strong>Waldo Lu\u00eds Viana*<!--more--><br \/>\n<\/strong><\/div>\n<div style=\"text-align:justify;\">Infelizmente, onde tudo \u00e9 capitalismo, tudo \u00e9 economia. Enquanto o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central alardeiam que o pa\u00eds foi ao fundo do po\u00e7o e voltou, humildemente ouso contrari\u00e1-los e, com pompa e circunst\u00e2ncia, os contradigo: a crise, aqui, senhores, mal come\u00e7ou&#8230;<\/p>\n<p>Esse est\u00f3ria de que a Na\u00e7\u00e3o foi a \u00faltima a entrar na crise e o primeira a sair, uma f\u00f3rmula apropriada para alunos de Economia quando estudam materiais e estoques, n\u00e3o serve, entretanto, para explicar o atual quadro econ\u00f4mico e \u00e9 conversa pra boi dormir&#8230;<\/p>\n<p>O governo, aconselhado por maus marquet\u00f3logos, aposta todas as fichas numa virtual revers\u00e3o de expectativas da popula\u00e7\u00e3o, como se economia fosse sabonete, o que, no fim, resultar\u00e1 em maiores perdas e danos. Antes diziam-nos: crise? que crise? N\u00e3o h\u00e1 crise. Logo depois: ah, n\u00e3o passa de marolinha&#8230; Mais al\u00e9m: a crise existe, mas n\u00e3o \u00e9 nossa, foi produzida por \u201chiperb\u00f3reos\u201d (seres gigantes, extraterrestres, brancos e de olhos azuis) e nos atingiu, mas estamos fortes; andando mais um pouco: chegamos ao fundo do po\u00e7o, mas estamos saindo&#8230; O papo parece com aquela velha piada: estamos \u00e0 beira do abismo, n\u00e3o obstante, com coragem, prosseguimos&#8230;<\/p>\n<p>Restaram, realmente, quatro empresas s\u00f3lidas para sustentar as bravatas do presidente: o Banco do Brasil, a Caixa Econ\u00f4mica Federal, o BNDES e a Petrobr\u00e1s.<\/p>\n<p>Constitu\u00eddas e elevadas muito antes do governo do PT e n\u00e3o privatizadas em raz\u00e3o do veto resoluto e silencioso das For\u00e7as Armadas (elas, apesar de tudo, ainda existem!) \u2013 tais empresas servem de sustent\u00e1culo \u00e0 economia do Brasil, que, de resto, est\u00e1 sofrendo de profundo e contundente estado de choque.<\/p>\n<p>A economia virtual e especulativa, encastelada no exterior, que sofreu o terr\u00edvel rev\u00e9s de acolher o capitalismo como pensamento \u00fanico, somada aos equ\u00edvocos de gest\u00e3o praticados por um governo megaloman\u00edaco, gastador e fingidor (mendigo em andrajos, fumando charutos Cohiba) trouxeram-nos at\u00e9 aqui: uma economia que, em oito anos, teve por \u00fanico objetivo a forma\u00e7\u00e3o de imenso super\u00e1vit prim\u00e1rio para rolar a d\u00edvida interna astron\u00f4mica, agradar nossos agradecidos credores e manter intato o poder e a popularidade presidenciais.<\/p>\n<p>Tais resultados foram obtidos atrav\u00e9s de juros estratosf\u00e9ricos, praticados internamente, que permitiram o controle monet\u00e1rio da infla\u00e7\u00e3o (n\u00e3o estrutural) e do aumento da carga tribut\u00e1ria, que financiou a m\u00e1quina do Estado para que praticasse a maior farra empreguista da hist\u00f3ria desse pa\u00eds!<\/p>\n<p>Deu no que deu: n\u00e3o tivemos reforma pol\u00edtica e tribut\u00e1ria, n\u00e3o profissionalizamos a burocracia estatal, que depende de favores patrimonialistas e inger\u00eancias pol\u00edticas, e presenciamos o s\u00e9quito de problemas de infraestrutura em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, saneamento b\u00e1sico e transportes, setores permanentemente estrangulados e deficit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Em suma, temos um governo que retorna \u00e0 rep\u00fablica velha e ao per\u00edodo de Get\u00falio Vargas, no apogeu do DASP: incentiva-se nos brasileiros o sonho de tornarem-se funcion\u00e1rios p\u00fablicos para n\u00e3o serem demitidos!<\/p>\n<p>Criou-se um Estado em que os seus gestores jamais podem ser demitidos por quem realmente o sustenta, pagando os impostos mais escorchantes do planeta, que fariam corar at\u00e9 os assassinos de Tiradentes!<\/p>\n<p>Lembram-se dos tempos em que havia greves e o anseio por\u00a0 aumentos salariais? Pois s\u00e3o coisa do passado, t\u00edpicas do museu da hist\u00f3ria! Quem vai recorrer \u00e0s paralisa\u00e7\u00f5es das d\u00e9cadas passadas, a n\u00e3o ser os setores protegidos do setor p\u00fablico? Na \u00e1rea privada, que mal se aguenta em p\u00e9, o tom, quase em un\u00edssono, \u00e9 preservar a qualquer pre\u00e7o os empregos, mesmo \u00e0 custa de redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios. Qualquer coisa, menos a demiss\u00e3o e o posterior desemprego, o fruto mais belo do capitalismo neoliberal galopante, infelizmente s\u00f3 encarado como veneno pela m\u00e3o-de-obra barata e indefesa. Greves, de verdade, s\u00f3 mesmo nas quatro empresas acima referidas, que constituem nosso pseudo-quadril\u00e1tero de prosperidade!<\/p>\n<p>Paradoxalmente, o \u00fanico personagem deste governo que estava certo \u00e9 o vice-presidente Jos\u00e9 Alencar que, com sabedoria mineira, sempre alertou para o perigo dos juros alt\u00edssimos num pa\u00eds de subconsumo. Agora, praticar o que ele falava h\u00e1 tempos j\u00e1 n\u00e3o vale, porque In\u00eas \u00e9 morta: o povo, que subconsumia, agora est\u00e1 esqu\u00e1lido. Os ricos, que antes investiam, agora est\u00e3o com medo, como a Regina Duarte e a Rede Globo, no passado&#8230;<\/p>\n<p>E o governo, cujo \u00fanico e obsessivo objetivo \u00e9 se autorreproduzir em mais um mandato, acena com mentiras: engordamento do PAC, um milh\u00e3o de casas populares e outras m\u00e1gicas que, com certeza, vir\u00e3o at\u00e9 o segundo semestre de 2010, iguais ao programa fome-zero, que \u201celiminou a fome\u201d nas regi\u00f5es mais pobres do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Enquanto isso, o que vemos, na pr\u00e1tica, s\u00e3o estados da federa\u00e7\u00e3o e munic\u00edpios em plena situa\u00e7\u00e3o de fal\u00eancia, pedindo dinheiro \u00e0 Uni\u00e3o de maneira agressiva e tempestiva, em virtude de n\u00e3o sentirem firmeza nas perspectivas de futuro, apesar de tudo o que o governo diz!<\/p>\n<p>O Banco Central retira do mercado 70% dos recursos banc\u00e1rios captados, esterilizando-os para rolar a d\u00edvida interna e garantir os atuais n\u00edveis de infla\u00e7\u00e3o. Assim os spreads cobrados pelos bancos n\u00e3o podem ser baixados, assim como o t\u00edmido decr\u00e9scimo da taxa b\u00e1sica de juros impede a reformula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de cr\u00e9ditos, que pudessem ser oferecidas a pessoas f\u00edsicas e jur\u00eddicas j\u00e1 endividadas. Como dinheiro chama dinheiro, quem n\u00e3o o tem n\u00e3o expande os neg\u00f3cios e perde a oportunidade de prosperar&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 mais para espremer ningu\u00e9m, buscando recursos, porque os agentes econ\u00f4micos, como um todo, est\u00e3o pagando d\u00edvidas e altos impostos e possu\u00edmos pouqu\u00edssimos setores capazes de investimento. Ent\u00e3o, o que acontece, em verdade, \u00e9 desaquecimento, desinvestimento e aumento do n\u00famero de demiss\u00f5es, no atacado.<\/p>\n<p>Ocorre que, como o sindicalismo \u00e9 pr\u00f3-governamental, n\u00e3o h\u00e1 nenhum protesto, nenhuma tentativa, como no passado, de greve geral, nenhum movimento org\u00e2nico contra o que est\u00e1 a\u00ed, porque o que est\u00e1 a\u00ed \u00e9 deles&#8230;<\/p>\n<p>Os empres\u00e1rios e suas entidades eternamente obedientes, por sua vez, sempre esperam milagres do governo, que absolutamente n\u00e3o vir\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 mais de onde tirar fundos e subs\u00eddios, porque os que havia foram todos utilizados e esgotou-se a imagina\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica em oferecer oportunidades f\u00e1ceis ao setor privado. O que \u00e9 engra\u00e7ado \u00e9 que, meses atr\u00e1s, os adeptos do Estado m\u00ednimo alegavam que seria a atividade privada quem deveria financiar o setor p\u00fablico pela dificuldade cong\u00eanita deste em gerar investimentos. Tal reviravolta\u00a0 configura a extraordin\u00e1ria capacidade de readapta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica do patronato, supondo-se a realidade da crise.<\/p>\n<p>Restam, ent\u00e3o, dois cen\u00e1rios poss\u00edveis,\u00a0 dada a crise real e a aproxima\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2010, ansiadas de maneira profunda pelo presidente e seu esquema sucess\u00f3rio. O primeiro \u00e9 o PT, coligado ou n\u00e3o, vencer o pleito presidencial; o segundo \u00e9 n\u00e3o vencer e passar de novo \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o. Neste \u00faltimo caso, assistiremos a um verdadeiro inc\u00eandio no Brasil, com as centrais sindicais, os movimentos sociais e estudantis novamente se levantando, de um longo e imenso sono que se nutre da solidez de quatro empresas ainda pr\u00f3speras e de um estado totalmente aparelhado, que hoje eles defendem e ap\u00f3iam com unhas e dentes&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align:center;\">[<a href=\"history.go(-1)\">Voltar<\/a>]<\/p>\n<p>____<\/p>\n<p>* Waldo Lu\u00eds Viana \u00e9 escritor, economista e poeta, considerado, por\u00e9m, meio quixotesco, porque acredita que vivemos \u201crealmente\u201d numa crise.<\/p>\n<p style=\"text-align:justify;\">Teres\u00f3polis, 16 de abril de 2009.<\/p>\n<\/div>\n<p style=\"text-align:justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cLula \u00e9 a nossa Maria-Fuma\u00e7a com bitola estreita: queima muito combust\u00edvel, carrega mais de 40 vag\u00f5es vazios, amea\u00e7a descarrilar na curva, n\u00e3o vai muito longe, mas apita que \u00e9 uma beleza!\u201d Mara Montezuma Assaf Por Waldo Lu\u00eds Viana*<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[14,2],"tags":[],"class_list":["post-4204","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-coluna-do-sardinha","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/opatriota.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4204","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/opatriota.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/opatriota.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/opatriota.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/opatriota.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4204"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/opatriota.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4204\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":71087,"href":"https:\/\/opatriota.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4204\/revisions\/71087"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/opatriota.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4204"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/opatriota.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4204"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/opatriota.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4204"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}